quinta-feira, junho 23, 2005

Lógicas

(Não tive tempo esta semana para um texto novo. Fiquem com o bom e velho.)

Lógicas
VERISSIMO

O senador Pedro Simon foi o último brasileiro a acreditar na lógica. Durante muito tempo batalhou para que CPIs como a que expôs os corruptos do esquema PC Faria tivessem seu complemento lógico, uma CPI dos corruptores. Batalhou sozinho. Pensou que tinha a lógica do seu lado. A lógica - pelo menos como sinônimo de raciocínio comum, ou pseudônimo do óbvio - é que não tinha mais ninguém do lado dela. Prevaleceu uma versão do curioso princípio brasileiro segundo o qual só o parceiro passivo é homossexual, o outro é no máximo um oportunista. Finalmente até o senador Pedro Simon se deu conta de onde estava e desistiu da lógica.Nenhum dos grandes empresários que colaboraram com o sultanato do PC para terem favores do governo precisou se preocupar com uma CPI ou sequer um tapa na mão.Estavam apenas cuidando dos seus negócios. Sendo, no máximo, práticos.
Corruptores a salvo da lógica, habituados a comprar favores de políticos sem risco, tendem a confundir sua impunidade com superioridade moral e dar maus exemplos. Na compra de apoio ao governo no Congresso, se houve, o PT teria agido com o mesmo desdém do empresariado pelos políticos, convencido de que não é antiético pagar picaretas para fazerem o bem como não é imoral pagá-los por bons negócios.Se foi assim, não pegaram o espírito da coisa. Não podem se queixar por não estarem sendo julgados como os empresários, apenas homens práticos fazendo o que fazem todos para prosperar no Brasil. São o partido da ética ostentada, da alternativa nova a velhos maus hábitos - enfim, tudo que os outros não perdoam. O PT era temido por ser, ou se proclamar, diferente e vai ser condenado por ser igual a todo o mundo. Ou um mau imitador de todo o mundo.
E depois que até o senador Simon abandonou a lógica, parece que caímos no reino do ilógico. É ilógico pensar que estamos em meio a um golpe conservador contra um governo que, mais do que o anterior, faz a alegria da classe rentista - e não é necessariamente errado. Mas o senador pode se sentir desagravado em pelo menos um ponto, nesta crise. Enquanto corruptos confessos passam por paladinos da moralidade, desta vez todas as atenções estão nos corruptores.
(OESP. 23.06.2005)

sábado, junho 18, 2005

Últimas

A saída de Zé Dirceu do Ministério da Casa Civil rendeu dividendos para todo mundo. A oposição acertou um upper no governo, Roberto Jefferson continua exercendo o sagrado e irresponsável direito de dizer o que quiser de qualquer um e o Planalto acena com uma reforma ministerial que pode encorpar a bancada petista na Câmara. O Brasil é mesmo muito democrático.

Ah, tava demorando...

Coincidência ou não, a Editora da UnB está publicando a colossal correspondência de Carlos Lacerda em dois volumes. Muito oportuno.
Déjà vu

No Estadão de hoje, o jornalista Carlos Marchi critica o discurso de Zé Dirceu proferido no ato em desagravo ao PT. Segundo ele, Zé Dirceu agiu como se estivesse no alto de um ônibus discursando contra a ditadura em 1968 e não como membro do governo em 2005. Também acho. Aliás, a imprensa também poderia parar de se comportar como se estivéssemos em 1964.

Pelo menos
“Eu acredito em Roberto Jefferson – PTB” era a frase estampada nas camisetas distribuídas ontem, antes do início da reunião do diretório nacional do partido. Idéia da filha dele, vereadora carioca pelo mesmo partido.
Memória curta
Segundo o príncipe D. Fernando, o Desejado dos Trópicos, o mensalão é "uma invenção contemporânea", porque nunca houve "qualquer tipo de prática similar no Brasil".

Lição de casa

"Batuta Musical" - outra missão.

Volume total de músicas em meu computador:
Você deve estar brincando.

O último CD que comprei foi:
África Brasil, Jorge Ben. Salve simpatia!

Música tocando no momento:
De forma a preparar o espírito para responder a próxima pergunta, o que exige uma certa solenidade, estou ouvindo A Cavalgada das Valquírias, do Wagner.

Vinte músicas que eu ouço bastante, ou que significam muito pra mim:
Como não temos controle sobre aquilo que ouvimos bastante (exemplo, Festa no Apê), prefiro as musícas que significam muito.

1) Strictly Genteel, Zappa – seria hino nacional do meu país fictício.
2) Amor, Secos & Molhados – “simples e suave coisa/ suave coisa nenhuma”.
3) Beatles. (Particularmente, In My Life. Parece um trocadilho idiota, mas é justamente porque me traz boas lembranças).
4) Take Five, Dave Brubeck Quartet– (“Jazz is not dead. It just smells funny” – Zappa)
5) This Friendly World, R.E.M., Andy Kauffman e Tony Clifton – definitivamente, uma música alegre (e engraçada).
6) Rush – músicos virtuosos e inteligíveis.
7) Bamboozled by Love, Zappa – a versão ao vivo dessa música com a base de Owner of a Lonely Heart do Yes é divertidíssima.
8) O cd Run Devil Run do Paul McCartney. Com David Gilmour (guitarra – Pink Floyd) e Ian Paice (bateria – Deep Purple). Quando meu sobrinho me perguntar o que é Rock ‘n Roll, vou responder com esse álbum.
9) Elis Regina – pelo inigualável vigor nas interpretações.
10) Guardanapos de Papel, Milton Nascimento – porque eu choro.
11) Whole Lotta Love, Led Zeppelin – quatro monstros. Deve ser mesmo coisa do Demônio.
12) Sofa nº 1, Zappa – um dia ainda vou ouvir essa música num casamento ou formatura.
13) Paranoid, Black Sabbath – todas as versões: a original, ao vivo com Ozzy Osbourne e Randy Roads e a do Megadeth.
14) Thick as a Brick, Jethro Tull – o álbum tem uma única música e lembra aquela Coleção Disquinho.
15) Chico Buarque – até eu, minha filha.
16) Karnak – bons músicos, bom humor, boa pedida.
17) A trilha sonora de Cães de Aluguel.
18) O álbum Playboy & Playgirl do Pizzicato Five – a prova de que podemos nos divertir sem entender absolutamente nada do que estão cantando.
19) White Stripes – podem me apedrejar.
20) Watermelon in Easter Hay, Zappa. Ou melhor, todas do Joe’s Garage. Aliás, tudo o que ele fez. Sempre. Amém.

Cinco (cinco?) pessoas pra quem eu passo a "Batuta Musical":
Os blogs indicados por Garatujas vão dar conta. Eu estou pensando mesmo nas pessoas com as quais terei que me reconciliar depois dessa lista.

quinta-feira, junho 16, 2005

Como óperas

“Sessões de CPIs e comissões como a de Ética ouvindo o Roberto Jefferson são um pouco como óperas: períodos alternados de melodrama e tédio entrecortados por uma ou outra ária memorável. A ária de Roberto Jefferson na terça foi muito boa. Certamente animada pela possibilidade de realizar o sonho secreto de todo tenor, que é o de derrubar o teatro com sua voz.”
(L. F. Verissimo)

quarta-feira, junho 15, 2005

Futebol... fazer o quê?

Por sorte, consegui um tempo nesta tarde e assisti à partida entre Alemanha e Austrália pela abertura da Copa das Confederações. Tudo bem, é um torneio inexpressivo, um verdadeiro caça-níqueis, etc, mas não custa nada dar uma espiadinha nos estádios onde serão jogadas as partidas da Copa do Mundo ano que vem. O novo estádio construído em Frankfurt, por exemplo, onde ocorreu a partida, tem capacidade para 60 mil pessoas, estacionamento subterrâneo, um telão principal como aqueles dos ginásios da NBA e... é um espetáculo. E antigamente eu achava que tínhamos condições de sediar uma Copa.
* * *
O futebol alemão é difícil de agüentar. A seleção alemã joga de maneira tão burocrática quanto a seleção inglesa mas sem a mesma elegância. Pelo contrário, enquanto os ingleses parecem jogar pólo, os alemães atuam como os tanques das divisões Panzer. E o pior é que funciona!

* * *
Nos poucos jogos em que vi Oliver Kahn atuar, ele não foi bem. Aliás, foi péssimo. Hoje de novo. E olha que ele já foi considerado um dos melhores do mundo. Quem sabe eu não esteja prejudicando o infeliz. Vou deixar de assistir aos jogos da Alemanha para ver o que acontece.
* * *
Juan e Roque “Rúnior” que formam a dupla de zaga do Bayer Leverkussen e o Lúcio que joga no Bayer de Munique são considerados ídolos na Alemanha pelas respectivas torcidas. Claro, se não como é que iria sair gol no campeonato?
* * *
Última: ano de centenário não fez bem para clubes de futebol. Tivemos o (triste) caso do Flamengo e dessa vez nuestros hermanos do Boca Juniors. Desempenho pífio no campeonato argentino e despedida melancólica (depois da surra em Guadalajara) com confusão em La Bombonera. Há gente dizendo que é tudo culpa daquela camisa comemorativa que lembra a do River...

Quadrinhos - Bob Thaves

Sugestão

Nas próximas eleições, a esquerda CVV não deveria lançar candidato a nada e votar em bloco no PFL para assim criar as "condições objetivas" da Revolução.

terça-feira, junho 14, 2005

Esclarecimentos

Acredito que muitas brasileiros adotaram "libertarian" como orientação política no orkut equivocadamente, imaginando se tratar de "libertário". Mas em inglês, "libertarian" designa a extrema direita americana (aquela que ainda acredita que os comunistas mandam mensagens secretas via embalagens de cereais matinais e que se precisar pega em armas contra o governo - qualquer governo) e sendo assim, "very libertarian" por aqui estaria mais próximo da UDR do que do MST.
Culpa de uma tradução apressada, sem dúvida. Mas quem me explica por que nessa crise do governo tanto a direita reumática quanto a esquerda CVV ("Caminho, Verdade e Vida") se refestelam fazendo cara de "viu como é tudo igual?"?

Não pula ainda

Se você acha que está tudo perdido, aconselho a leitura da entrevista publicada na Carta Capital desta semana que minha querida amiga fez questão de republicar. Com grifos e tudo!
Vai lá e prestigia, pô!

domingo, junho 12, 2005

Dasluminismo II

Como previsto, o Dasluminismo continua conquistando corações e mentes:

"A corrupção é um mal do povo brasileiro! Está na nossa genética ruim, feita com imigrantes, um povo degradado. As pessoas de Portugal que vieram eram as que mais atrapalhavam. Depois chegaram os outros imigrantes, já tentando impor mais respeito. Começou tudo errado."
(Raul Rei Lear Cortes, ator, na inauguração da Daslu)

Dasluminismo

Anote aí, 08 de junho de 2005. Em pouco tempo, essa será uma data tão importante para os brasileiros quanto o 04 de julho para os estadunidenses. Nesse dia, testemunhamos (contra a vontade, porque somos ignorantes) um acontecimento singular na História: a inauguração do maior templo nababesco de consumo do mundo e de quebra acompanhamos o nascimento de um movimento intelectual genuinamente brasileiro: o Dasluminismo.
Não bastasse incutir o bom gosto e o luxo nos hábitos da patuléia, Eliana Tranchesi, a proprietária do colossal empreendimento, filosofa e nos brinda com sua sabedoria em todas as inúmeras entrevistas concedidas semana passada para celebrar o magnífico evento.
Acompanhe (entrevista concedida a Luciana Garbin e publicada em OESP de 05 de junho):
Obs: a entrevista a seguir é real. Qualquer semelhança com personagens e obras de ficção como Quanto Vale ou É por quilo? é mera coincidência.


O Brasil é um dos campeões de desigualdade social. Incomoda ser dona de um templo do luxo?
Não. Primeiro, porque não sou responsável pela desigualdade, muito pelo contrário. A gente tem uma creche, que, atenderá, neste prédio, a 200 crianças. Praticamente todos os filhos dos funcionários - tão bem assistidos quanto os meus filhos. O seguro-saúde dos empregados é o mesmo que meus filhos têm. Eles têm vida digna. São 1.200 pessoas que podem comer aqui, têm espaço para fumar, descansar, tomar sol, têm quadra de esporte... Tem sabe o quê também? O olho no olho, atenção. Todo mundo aqui é muito bem tratado. E eu faço a minha parte, pago todos os impostos e acho que a gente acabou com a evasão de divisas. Só para consertar roupa, dou emprego para 150 costureiras. Não me sinto culpada e acho que a geração dos meus filhos é muito mais consciente dos problemas no Brasil. Não adianta reclamar, a gente tem de fazer.

Como surgiu a idéia da creche?
Eu tinha uma copeira, a Lindomar, que servia café. Numa segunda-feira, ela faltou. A irmã veio e contou que o filho dela de 15 anos tinha sido assassinado no fim de semana. E que a filha de 9 anos não podia ir sozinha para a escola, por causa da violência. Resolvi começar a creche. Começamos com 25 crianças. Hoje, damos capoeira, balé, computação, inglês, dentista, fono. E estamos estudando a possibilidade de, a partir do próximo ano, ser escola.
O que significa esse império?
Acho que é obra de Deus. Tudo aconteceu no tempo certo. Inclusive o problema na Vila Nova. Na época, eu pensava: não é possível, meu Deus, eu, com 600 empregados, e o Contru procurando motivos para fechar a Daslu! Agora, vejo que tudo foi para o bem, foi para uma obra maior.

Haja tapete

(texto do Verissimo publicado quinta-feira, dia 09 de junho.)

Estava certo que o PT não mudasse a política econômica do governo anterior, mas poderia ter mudado pelo menos a sua decoração de interiores. Não mudou. Manteve o grande tapete para baixo do qual o governo passado varreu todos os seus escândalos e ameaças de CPIs inconvenientes. Pode ter se impressionado com a sua útil grandiosidade. Afinal, um tapete capaz de cobrir todas as suspeitas inexplicadas de um processo como o da privatização das telecomunicações - um dos maiores negócios do mundo, na época, gerador de maracutaias também gigantescas - sem que ficasse aparecendo um calombo, não é de se jogar fora, ou trocar por carpetes funcionais. O PT talvez só esteja se perguntando por que o tapetão milagroso funcionou para abafar o caso dos votos comprados para a reeleição do Fernando Henrique, além de casos amazônicos como o das teles e outros, e não funciona com ele.
A pergunta seria ingênua.
Nem é preciso recorrer a mais uma piada sobre a circunferência do Roberto Jefferson para concluir que faltaria tapete para esconder o volume de escândalos que ele protagoniza, promove e sugere. Também é uma questão de classe: o governo anterior era de gente fina, que merecia os privilégios de um tapete acomodador sob os seus pés, mesmo sujos. Já o que não falta agora é indignação do patriciado com a invasão do governo por lulas e afins, que literalmente não sabem onde pisam e não combinam com a decoração. Não fosse por um detalhe, o que estaria em curso hoje no Brasil seria um clássico golpe conservador, como todo o seu arsenal de moralismo seletivo e denuncismo dirigido, contra um inadmissível governo de esquerda.
O detalhe que falta, claro, é o governo de esquerda.No fim, a explicação que tem de ser dada não é a dos suspeitos para os jornais e as CPIs, é a do PT para os seus militantes e eleitores, para aquele cara acenando sua bandeira vermelha na esquina, sozinho, de graça, porque acreditava e confiava. E o que precisam lhe explicar é por que mágica seu voto no PT deu num Roberto Jefferson com tantos poderes no governo, inclusive o de derrubá-lo.

quinta-feira, junho 09, 2005

Eliminatórias


Nunca fui adepto do "uma imagem vale mais do que mil palavras". Mas respondendo a pergunta...

quarta-feira, junho 08, 2005

No conto

A Ovelha Negra, Italo Calvino relata a história de um país muito curioso onde todos os seus habitantes eram ladrões e ganhavam a vida roubando uns aos outros. Todas as noites, os ladrões saíam de suas casas para roubar e quando voltavam, encontravam suas residências saqueadas. Trapaceavam no comércio dos produtos do roubo. O governo roubava os súditos, que por sua vez, sonegavam impostos. E viviam em paz pois não havia diferenças entre eles. Até que um dia apareceu um homem honesto.
O homem honesto não saía de casa para roubar e justamente por isso, acabava impedindo que alguém a roubasse. Ou seja, no dia seguinte, uma família ficava sem ter o que comer. Sabendo disso, então, o homem honesto passou a se ausentar de sua casa. Quando voltava, sua casa estava devidamente arrombada. Seus bens duraram uma semana.
Tal comportamento gerou um grande problema porque sempre que alguém voltava de um roubo, descobria sua casa intacta. Gradativamente, os que não eram roubados se tornaram ricos e não queriam mais roubar. E também se ausentavam de suas casas aumentando a confusão, pois os ricos logo perceberam que se continuassem sem roubar ficariam pobres. Então, contrataram os pobres para roubar por eles. Como ainda viviam num país de ladrões, também roubavam uns aos outros nos contratos de trabalho. E como sempre os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres mais pobres.
Os ricos mais ricos não precisavam roubar e mandavam roubar apenas para continuarem ricos. Se parassem de roubar, ficariam pobres porque seriam roubados pelos pobres. Por isso, contrataram os mais pobres para defenderem suas posses dos pobres, instituindo a polícia e as prisões. No antigo país dos ladrões não se falava mais em roubar ou ser roubado, mas de ricos e pobres.
O homem honesto morreu de fome.

Allons enfant de la patrie...

Além de todos os resultados políticos, econômicos, sociais, culturais, etc, etc, etc, a Revolução Francesa também nos legou um acervo inesgotável de boas histórias. Por causa do clima dessas últimas semanas, duas delas não me saem da cabeça.

1) Após a tentativa malograda de fuga em Varennes, a tensão tomou conta de Paris. Enquanto a multidão enfurecida aguardava o retorno do rei traidor, o desavisado conde de Dampierre decidiu recepcionar e saudar a volta de Luís XVI. Foi assassinado pelos camponeses.

2) Durante o Terror, prevendo os rumos que a Revolução tomaria, Robespierre teria afirmado: “César virá”. Não deu outra.

sábado, junho 04, 2005

Impávido colosso

Radar Social pesquisa publicada esta semana pelo IPEA:

"Em 2003, do total de habitantes que informam sua renda, cerca de um terço (31,7%) é considerado pobre - 53,9 milhões de pessoas -, vivendo com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo (R$ 240,00 - entre abril/2003 e abril/2004). Quanto aos muito pobres (ou indigentes), com renda domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo, a proporção é de 12,9%, ou 21,9 milhões de pessoas."

Deixa que eu te ajudo

Se sua consciência pesasse, você venderia ela por quilo.
(Malvados, ano 2, diário, número 518)
Assistir Quanto vale ou É por quilo? de Sérgio Bianchi não é um bom programa. Se você concorda com a tese dele, não fica satisfeito. Se você discorda, fica ofendido. Incomoda o tempo todo: desde a maneira como ele filma, os diálogos, a direção dos atores, até a maneira pela qual ele critica as ONGs.
Antes de continuar, quero deixar claro que concordo com a tese do filme: ONGs mercantilizam a miséria, sim, e prometem resolver problemas sociais através de iniciativas individuais, ponto, desculpem. É um fenômeno de privatização de problemas que o setor público não consegue (porque não pode, não sabe ou não quer) resolver. Como em todo os outros processos de privatização, a contrapartida é a mesma: incentivos e isenções em troca de eficiência, responsável pelos dividendos, etc. E no "deixa que eu te ajudo" nacional há um pouco de tudo: lavagem de dinheiro, expiação de culpa, má fé, messianismo e uma certa dose de bom mocismo mesmo. Perfeitamente dispensáveis, obrigado.
Porém, essas questões ficam pairando entre os personagens do filme e o diretor não aprofunda nenhuma delas. Quando tenta, apresenta os conflitos de maneira esquemática, por exemplo, ao comparar escravos e miseráveis ou o capitão-do-mato com o justiceiro de periferia. Por outro lado, Bianchi acerta a mão quando trata do sistema carcerário brasileiro e da atuação daquela instituição melhor preparada e mais experiente no exercício da função de capitão-do-mato. E apenas porque um dos personagens diz que sequëstro também é distribuição de renda não significa que Sérgio Bianchi concorde com ele.
Quanto vale... não tem a mesma consistência de Cronicamente Inviável, mas nem por isso deixa de cumprir sua função de incomodar.

domingo, maio 29, 2005

Filmes, filmes

Almodóvar surpreende sempre. Para o bem e para o mal. Que diabos o Caetano está fazendo em Fale com Ela? Figura entre as cenas mais desgraçadamente lastimáveis do cinema sério. Entretanto, transforma-se em algo perdoável quando surgem as cenas do filme mudo. Aquilo, uma viagem digna, bacana!
Talvez estivesse esperando demais do filme e por isso não tenha me impressionado tanto como em Tudo sobre minha mãe. Os dois filmes conseguem contar histórias tocantes sem clichês noveleiros, porém Tudo é mais forte, tem mais pegada.
Preciso assistir aos dois de novo.

* * *
Celebridades, um dos melhores de Woody Allen, consegue articular diversas faces dessa peste que é o Caras’s way mostrando como a contemporaneidade anda repleta de gente banal que se crê genial, pessoas frustradas e terrivelmente inseguras, egocêntricas, cruéis e vazias. E apesar de tudo, ele consegue fazer (muita) graça com isso!

* * *
No filme, Kenneth Branagh (interpretando Woody Allen, perfeito) faz o papel de um jornalista que cobre esse mundinho. Durante uma entrevista a uma atriz famosa, para criar um clima de “foi aqui que tudo começou”, eles decidem visitar a casa em que ela nasceu. A impressão da atriz é a de que a casa era menor. “Acontece com freqüência.” – responde o jornalista.
Como deu para perceber, a cena não tem nada de mais. Mas lembrei dela apenas porque ontem (28/05), o prefeito José Serra após uma solenidade decidiu visitar a casa onde ele viveu quando adolescente, no bairro do Ipiranga. “A janela ainda é a mesma e meu quarto parecia bem maior”.
Deve significar alguma coisa, sei lá.
* * *
Se Star Wars seguisse uma ordem cronológica e o Episódio IV ainda precisasse ser filmado, Kenneth Branagh bem que poderia interpretar Obi-Wan...

Histórias de bar

A história abaixo é contada por Aluízio Falcão em matéria do Caderno 2 de sábado (28/05). Nela, ele comenta duas obras que tratam da boêmia paulistana e lamenta a falta de trabalhos sobre os bares da cidade.
PS: Tomara que não encontre nenhuma celebridade nos próximos dias.
Era conhecido como Zé do Pé. Advogado e funcionário de uma autarquia federal, andava pelos bares em companhia da elite paulistana, desde o happy hour até altas horas. Andar com gente importante era sua maior alegria. E os grandes apreciavam sua verve, inteligência, ritmo perfeito no levantamento de copos.
Ainda hoje corre pela noite o que se passou entre Zé do Pé e o banqueiro Walter Moreira Salles. Zé não conhecia Walter, que certa vez adentrou o bar do Hotel Jaraguá e foi caminhando em direção ao banheiro. Passou batido pela mesa onde o boêmio estava com os amigos aristocratas. Vendo aquela celebridade e animado pelo bom scotch, Zé teve uma idéia. Dirigiu-se ao banheiro, onde encontrou o financista.
- Doutor Walter, desculpe abordá-lo, o senhor não me conhece, mas venho pedir-lhe uma grande gentileza. Não é dinheiro não, fique sossegado. Acontece, doutor Walter, que o meu prazer na vida é estar próximo de pessoas importantes que fazem o favor de me estimar. Eu seria um homem feliz se pudesse dizer aos amigos que estão comigo, naquela primeira mesa, que o doutor Walter Moreira Salles me conhece. Basta que o senhor, passando na mesa onde estou, ponha a mão no meu ombro e diga "tudo bem, Zé?". Nada mais que isso. Eu respondo "tudo bem, doutor Walter", e o senhor vai embora.
O banqueiro, perplexo, escutou o pedido feito naquele tom entre desabafo e afetividade que só os boêmios veteranos conhecem. Que diabos, pensou Walter, o que me custa saudar rapidamente este homem carente de prestígio? Optou pela gentileza, prometeu a saudação. Zé do Pé agradeceu, de olhos úmidos, voltou para o seu canto no bar.
Daí a minutos, lá vem o famoso banqueiro. Pára na mesa indicada. Todos os olhares voltam-se para ele, que põe cordialmente a mão no ombro de Zé do Pé e faz a pergunta combinada: "Tudo bem, Zé?" E Zé do Pé, triunfante, com absoluta intimidade, empurra bruscamente aquela mão do seu ombro: 'Ah, Walter, não enche o saco!' O banqueiro retira-se, aturdido. Os amigos do boêmio passam a crer piamente no comentário que ele fizera minutos antes, ouvido com absoluta descrença: "Tudo que temo é o chato do Walter Moreira Salles vir puxar conversa comigo..."

Choro e ranger de dentes

Quem gosta de futebol e não assistiu à final da Liga dos Campeões da Europa entre Liverpool e Milan sabe que caiu em desgraça irremediável. Sabe também que ver os gols e os melhores momentos nos programas esportivos não trouxeram consolo. Pelo contrario, aumentaram a dor e desolação. Ler as notícias e artigos como o de Silvio Lancelotti não ajudaram pois ali se tem a dimensão e gravidade da perda.
Responsabilizar o trabalho e espancar o chefe como represália apenas causará sua demissão e pode dificultar os planos de assinar todos os canais esportivos disponíveis (mesmo sabendo que a tv a cabo vai causar um rombo no orçamento que sua família não recupera em três gerações). E tornar-se um pária social e mergulhar na vida monástica para acompanhar até a terceira divisão do campeonato nepalês na esperança de presenciar uma partida como aquela será uma tentativa tola e inútil. Não há redenção possível.