terça-feira, fevereiro 21, 2006

Suplicysmos

O senador Eduardo Suplicy(PT-SP) teve um dia agitado ontem. Participou de uma manifestação contra a absolvição do coronel Ubiratan Guimarães, inocentado da acusação de matar 102 dos 111 presos (não pode ser responsabilizado pelos nove mortos à golpes de faca) no massacre do Carandiru. Com outros manifestantes, o senador desempenhou papel de um dos mortos no massacre, na frente do Tribunal de Justiça de São Paulo.
À noite, o senador compareceu ao show do U2: "Vim ao show especialmente para ver Bono Vox, pelo engajamento dele na luta pela erradicação da pobreza em todo o mundo".
Nota 7,5.

Guerra das Estrelas

(sugestão e idéia original de Daniel Gonçalves)
Ao comunicar a sua “decisão amadurecida” a integrantes do grupo político que o apóia, Alckmin disse: “Quer dizer que o Serra quer unanimidade? Para ele ser candidato eu tenho que renunciar à minha candidatura? Pois então ele não será candidato. Não abro mão de disputar”. Se quiser concorrer à presidência, diz Alckmin, Serra terá de disputar com ele a preferência do partido.
- "Good, Alckmin, good! I can feel the anger fluing through your blood lines"

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Indocência

Sala dos professores.
I
- Vocês viram que Beltrano está triste porque a Sicrana está ficando com Fulano.
- Mas é claro. Você acha que a Sicrana depois de experimentar Fulano, voltaria para Beltrano? Fulano é um homem vivido. Já saiu até com mulher casada.
II
- Eu achei ótimo colocarem Fulano (outro, homônimo - provavelmente com o mesmo sex appeal do primeiro) na sala tal. Vocês viram, as piriquitas estão todas pulando por causa dele.
III
- Dona Diretora, prefiro não organizar a feira cultural na 8ª série porque não tenho afinidade com a sala.
- Afinidade? Isso não existe! Você vai organizar a feira cultural lá porque estou mandando.
IV
- Dona Diretora, como deveríamos trabalhar o tema da terceira idade com a 5ª série?
- Não sei, pensem em alguma coisa. Façam maquetes...

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Flanfo

Em setembro de 2001, por ocasião de lançamento do Houaiss, o Verissimo defendeu a publicação de um Dicionário Reivindicativo da Língua Portuguesa que seria composto por palavras que não existem, mas que deveriam existir. Por exemplo, um adjetivo como rechechê (sinônimo de elaborado, prolixo, preciosista) descreveria de maneira exata os modos de nosso ex-presidente. Outra: Flanfo (definição para 'sujeirinha de umbigo') seria um ótimo título para uma auto-biografia.
Naquele mesmo mês e ano ocorreu o ataque terrorista contra o WTC. No dia do atentado, estava dando aula numa sala de 3º ano do Ensino Médio, quando a diretora da escola entrou esbaforida pela sala, quase aos berros:
- Professor! Leve os alunos até a sala de vídeo! Nos Estados Unidos, um acidente com um avião acabou de derrubar o Empire State!
(lembrança inspirada por um texto da Monix, publicado hoje em Duas Fridas)

terça-feira, fevereiro 07, 2006

"É somente requentar, e usar"

"A destruição do passado - ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem num presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadres, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores."
(HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. SP: Cia.das Letras, p.13)
Em 14 de julho passado, o senador Arthur Virgílio afirmara da tribuna “Estou dizendo aqui, na melhor das hipóteses, senhor Lula, o senhor é um idiota; na pior, o senhor é um corrupto”. Naquela semana, dia 12 de julho, os jornais publicavam uma pesquisa apontando um crescimento da popularidade de Lula, mesmo com todas as denúncias de corrupção que assombravam o planalto.
Na semana em que a revista Isto É publicou matéria de capa com o ex-presidente e sua frase "A ética do PT é roubar", FHC também concedeu entrevista ao programa Roda Viva de ontem, na qual afirmou a respeito do esquema de compra de parlamentares da base aliada: "Ou (Lula) é muito ingênuo, portanto não estava preparado para ser presidente, ou ele sabia, o que é pior ainda". Domingo, dia 05, o Datafolha publicou outra pesquisa mostrando um crescimento na popularidade do presidente.
O que eu quero dizer com isso? Nada, nada. Sou um simples cronista, memorialista, um compilador... um cara chato, enfim.

domingo, fevereiro 05, 2006

Os intolerantes

Interessante observar os diletos defensores da ampla liberdade de expressão criticarem a reação exagerada da comunidade muçulmana contra as caricaturas do profeta Maomé, acusando-a de não compartilhar os valores da sociedade ocidental, e manifestaram apreensão com a vitória do Hamas nas eleições palestinas.
Novidade nenhuma. A repercussão da eleição do Hamas na AP e a campanha solidária pela liberdade de imprensa movida pelos jornais europeus são apenas o exemplo mais recente de uma velha tese: ninguém gosta muito de democracia. A democracia parece aquela tia solteira que todo mundo adora e acha o máximo, mas queria mesmo era que estivesse bem casada.
Ainda que a apreensão da comunidade internacional se justifique pelo histórico envolvimento do partido em atentados terroristas, deve-se lembrar que o Hamas venceu o pleito através de eleições livres e sem fraudes aparentes, como manda o figurino. Muito diferente do que aconteceu com a maior democracia do mundo em 2000. Chegando ao poder de maneira legítima e não pela via armada, o Hamas fez uma opção política e espera-se que a alternativa terrorista seja descartada. Justamente por isso, merecem algum crédito. E torcida, muita torcida.
Em artigo do Aliás de hoje, o filósofo Tariq Ramadan considerou a publicação das charges "uma forma obtusa" de analisar a questão da liberdade de expressão. Para evitar a idolatria, os muçulmanos proibem a representação da figura humana e a iniciativa de fazer uma caricatura do profeta parece uma provocação gratuita. Provocação que, segundo o filósofo, não deveria levar a reações tão emocionais da comunidade. Ramadan aponta que o mais grave nesse caso não são os inexistentes limites legais para a liberdade de expressão, mas os limites cívicos. Retratar Maomé com uma bomba no turbante não é um simples exercício do direito de opinião, mas uma ofensa a todos os muçulmanos. Em poucas palavras, é crime e tem nome: racismo.
Os muçulmanos não são menos democráticos porque não elegem os candidatos preferidos pelo Ocidente e porque não acham muita graça nas piadas que fazem sobre sua tradição, não quer dizer que lhes falta senso de humor. Estão sendo apenas coerentes. Outra coisa que as democracias ocidentais nunca entenderam muito bem.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Lá e cá

Sérgio Augusto escreveu um artigo muito bom (redundância, redundância) chamando a atenção para o comportamento da imprensa a respeito da eleição de Evo Morales. Citou um artigo do neoconservador David Brooks e um editorial do NYT que saudavam a eleição de Morales, e um comentário de Carlos Alberto Sardenberg ("brasileiro, sem sangue índio, aparentemente mais seguro do que a CIA sobre o que sucederá na Bolívia a partir de amanhã") que prevê a aliança de Evo, Fidel e Hugo Chávez, o horror, o horror. Para quem nunca se interessou pela Bolívia, os mais realistas que o rei estão muito preocupados.
E quem fica feliz com a posse de Evo Morales e a vitória de Michelle Bachelet descobre duas páginas depois que Cavaco Silva foi eleito presidente de Portugal no primeiro turno e que as eleições parlamentares no Canadá devem levar um simpatizante de George Bush ao cargo de primeiro-ministro. É verdade que nada de muito significativo acontece por lá, mas não poder confiar nos canadenses assusta um pouco.

sábado, janeiro 14, 2006

Tudo sob controle

As afirmações do secretário de Segurança Pública de São Paulo sobre os ataques contra bases comunitárias da PM são lapidares. Saulo Abreu comentou que o destino dos autores do atentado será "cadeia ou IML" e não acredita que os ataques tenham sido provocados para desestabilizar a campanha eleitoral do governador Alckmin à Presidência da República.
"Cadeia ou IML" sempre foram as opções da política de segurança pública em SP e a constatação do secretário não traz nenhuma novidade escandalosa. Por isso ninguém notou a falta de serenidade no comentário.
Gostaria de lembrar que pelo menos três pessoas morreram na série de atentados(um policial e dois criminosos), a PM acuada e disposta a tudo aumenta a sensação de insegurança e os baixos investimentos no setor reforçam a solução mais violenta.
Quanto ao mais importante, pode ficar tranqüilo secretário. A campanha eleitoral continua firme e forte.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Poucas e boas

Para quem gosta de antologias de frases, Carta Capital nos fez o favor de publicar Frases Capitais 2005 em edição de bolso com as frases do ano que já foi tarde. Com apresentação de Nicolau Sevcenko e a promessa de tranformar o projeto em publicação anual, temos uma amostra daquilo que melhor se produziu no pensamento ocidental.
O grande campeão é Severino Cavalcanti. Alguns pensamentos da ilustre figura são verdadeiros achados. Duas da imensa lavra: "Ah! Esse aqui é o dono do Brasil." - ao ser apresentado a Lázaro Brandão, presidente do Bradesco. "Oposição? Tá doido? Eu gosto é de governo".
Lula também não deixou por menos e nos brindou com algumas pérolas. Uma delas de uma profundidade anti-sartreana pouco percebida então: "O problema do Brasil não são os outros, mas nós mesmos".
A coletânea está dividida em áreas e além de política abrange economia, mundo, variedades, esportes e cultura. Nessa última, a frase de Daniel Baremboin, maestro argentino-israelense, talvez seja a mais significativa numa época tão esquisita quanto a nossa: "Judeus e árabes são iguais ante Beethoven". Bem, pelo menos é a que mais gosto.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Duas

Moitas
José Serra pode desocupar e deixar Gilberto Kassab em seu lugar fazendo o que um pefelista faz como ninguém. César Maia acena com a possibilidade de desocupar, mas quem acredita? Garotinho está doido de vontade de desocupar. Geraldo Alckmin deu até prazo para desocupar. Lula não sabe ainda se desocupa. E a gente aqui, esperando.
Frases
Se frases como "Não serei candidado por W.O." tornarem-se recorrentes numa eventual eleição de Geraldo Alckmin à presidência, seus assessores já elaboraram a justificativa política: herança maldita.

sábado, dezembro 17, 2005

Atualização

Leia, Leia.
  • Torpor - overdose sem contra-indicações.

Clica e Vai

Profeta

Os dois últimos textos eram aquecimento para outros dois a respeito de um artigo que o filho do Sr. Ênio Mainardi escreveu na Veja. Mas as respostas de Alberto Dines e a repercussão do artigo foram publicadas no Observatório da Imprensa e por isso não há nada a acrescentar, salvo os links (edições de 29/11 e 06/12).
As entrevistas citadas no texto anterior não estão relacionadas à entrevista concedida por Mino Carta à Caros Amigos deste mês. Talvez meus poderes proféticos estão saindo do controle.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Do baú

Em novembro de 2000, a extinta revista República trouxe uma entrevista com Mino Carta por ocasião do lançamento de seu livro O Castelo de Âmbar. Como sempre, Mino desfechou ataques ferinos aos barões da imprensa brasileira.

"Como não tenho raiva do velho Frias (Octávio Frias de Oliveira, da Folha de S. Paulo), colaborei com a Folha em duas oportunidades, e ele sempre teve comigo um comportamento impecável. Tenho problema com o Otavinho (Otávio Frias Filho) porque o Otavinho é uma besta, um ser subdoloso e eventualmente mau. São tantos recalques nele que ele pode ser muito mau."

Frias Filho se manifestou sobre a frase e, na mesma edição, o trecho da matéria que introduzia a entrevista trazia o seguinte comentário dele: "Não tenho respeito moral nem intelectual por Mino Carta, que considero uma mediocridade emplumada. A obsessão desse sujeito comigo é assunto para psiquiatras".

Na edição de dezembro de 2000 da também extinta(mas essa infelizmente) Bundas, Mino Carta concedeu uma entrevista na qual explica que a origem de seus problemas com Frias Filho se deu em uma mesa redonda da SBPC da qual participaram, quinze anos antes. Ele afirmara que um dos problemas do jornalismo brasileiro era a presença de diretores de redação por direito divino. Segundo ele, não teve a intenção de ofender Frias Filho, mas apenas chamar a atenção para uma prática brasileira que não existia na imprensa de nenhum outro lugar do mundo.

Tempo depois, Frias Filho publicou um artigo afirmando que Mino tinha algum "problema psiquiátrico". Mino respondeu em o Diário do Grande ABC, mas seu artigo foi censurado. Conta ele:

"Tendo a crer que o foi por causa do senhor Otavinho. Eles devem ter ligado para ele, como fizeram agora meus entrevistadores na revista República. Quando se fala de caras da comunicação, eles ligam. Eu já vi entrevistas que tinha resposta na edição seguinte. Lógico, evidente. Mas contemporaneamente? Eu dei a resposta e eles ligaram e perguntaram: 'Otavinho, o que você tem a dizer a respeito?'

Procuraram o Roberto Civita (*), que disse uma besteira qualquer. Agora o outro, não. Voltou à carga e disse que 'não tem respeito intelectual nem moral' por mim, que eu sou um 'intelectual emplumado'. Acho que quanto ao respeito intelectual ele tem toda a razão, eu mereço isso. Agora moral? Não dá.

Ziraldo [provocando]: Pois é, mas você falou que ele era uma besta.

Mino: Mas não uma besta porque ele seja um cretino. Não acho que ele seja um cretino. Falei uma besta, assim, como quando a gente diz [largado, espontâneo] 'aquele cara é uma besta!' Mas é um cara que dá nota todo mês aos repórteres, e afixa num quadro. É de uma maldade sublime. Todos os rapazes que chegam perto dele e galgam postos, e tal, ele acaba devorando. Todos, todos."

(*) Roberto Civita também é citado na entrevista de República.


Cartilha

A matéria da Folha (gentilmente publicado por ela) é prova da ignorância que boa parte dos jornalistas têm a respeito da própria atividade. Em 2002, apenas a Carta Capital e OESP declararam abertamente a quem apoiariam na corrida presidencial (Lula e Serra, respectivamente). Vontade manifestada em editorial. Qual o problema? Delito de opinião? O leitor tem o direito de saber em quem o veículo vota por uma questão de honestidade. Isso que constitui novidade por aqui já é praxe na imprensa norte-americana, lembrada por nossos jornalistas a cada quinze minutos como modelo de bom jornalismo.
Reportagem e cobertura devem procurar o mínimo de imparcialidade. Os editoriais e artigos assinados nunca. Deve ter isso na Caminho Suave do jornalismo.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Insone

Todo mundo sabia que o Zé Dirceu não iria escapar da cassação, por isso acompanhar o processo e a votação na Câmara também era uma medida protocolar. Ouvir a transmissão da CBN, na verdade, era apenas uma forma infálivel de pegar no sono.
Lucia Hippolito, porém, frustou todos os meus planos ao repetir algumas vezes a palavra qüestão durante a cobertura. Quem consegue pregar os olhos sabendo que tremas saltaram das caixas acústicas e se esconderam em algum lugar da sala?

segunda-feira, novembro 28, 2005

Apelo

Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Professor procura II

O Estadão de 13/11 publicou uma entrevista em página dupla com o prefeito José Serra. Não havia comentado a entrevista até agora porque tomei conhecimento dela hoje. Perdeu um pouco da graça tecer qualquer consideração a respeito da entrevista. Via de regra, as entrevistas com políticos estão padronizadas no "levanta que eu corto". Por que não fazem auto-entrevista de uma vez?
A diversão mesmo ficou por conta do box com uma frase "Quero a volta do ensino da taboada". Nele, lemos que o prefeito adotou uma "atitude inusitada": uma vez por semana o prefeito comparece a uma escola pública para ensinar a criançada. Segundo o prefeito, além de ser uma atividade relaxante, ele pode acompanhar melhor os dramas da educação brasileira. Trabalho de campo diletante.
Segundo a reportagem, o prefeito ensina Matemática para crianças da terceira e quarta série do ensino fundamental. Ele distribui palitos de fósforo para cada aluno e pergunta qual o time de futebol de sua preferência, reunindo essa informação para ensinar gráficos e tabelas para a turma.
Minha imaginação pedagógica não alçou os mesmos vôos e não entendi que papel cumpririam os fósforos naquela aula. A reportagem talvez por considerar sua função óbvia demais não explicou a razão deles estarem ali. Apesar da minha imaginação pedagógica deficiente, acho arriscado brincar com a imaginação de crianças munidas com fósforos, haja visto o que algumas delas esperam da escola. Melhor tentar com giz.

terça-feira, novembro 22, 2005

Professor procura

A diferença entre desocupado e desempregado é que o segundo não é remunerado e dificilmente consegue construir patrimônio nessa profissão. Como para se tornar um desocupado deve-se primeiro arranjar uma ocupação para depois ignorá-la, final de ano é época de imprimir currículo em tiragem de jornal e sair por aí batendo porta de colégio. Somos pessoas em busca das instituições. Ao contrário dos xerifes de faroeste americano, nós colamos os cartazes nos postes com a frase Procurando.
Ser professor é a segunda coisa que sei fazer melhor na vida (a primeira é jogar dominó). Gosto da profissão. Chatos são os professores. O número de xícaras numa sala de professores explica-se pela quantidade de pessoas com a profundidade de pires que circulam por lá. Está aí S. que não me deixa mentir.
Por falar em S. , já que andamos estabelecendo novos contatos no orkut, meu atual hobby é visitar comunidades dedicadas aos professores e discussões sobre a docência. E descobri que não existe uma comunidade chamada Pérolas dos Professores. Uma pena.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Desculpas

A crônica do Verissimo abaixo foi publicada domingo passado. Embora ele tenha acertado alguns palpites recentemente, não tem a ver com o jogo de ontem. Ou não só.
E esse também é meu covarde pedido de desculpas pela ausência nas últimas semanas.
Comprados
"O Tatu tá comprado." A frase percorreu o vestiário, dita baixinho, antes do time entrar em campo. Significava que o goleiro do time adversário tinha concordado em facilitar a entrada da bola no seu gol mediante uma compensação financeira. Ou, resumindo: o Tatu tava comprado. Bastava chutarem contra o gol do Tatu, de qualquer distância, que o Tatu aceitaria. O jogo estava ganho.
Como o jogo estava ganho, o pessoal relaxou. Não só não chutou nenhuma bola, de qualquer distância, contra o gol do Tatu, como levou dois gols, em poucos minutos, do adversário. Aliás, gols estranhíssimos. Que provocaram uma suspeita: assim como o goleiro do outro time tinha sido subornado, o deles também poderia ter sido. O Valmor também tava comprado! Começaram a pressionar, para diminuir a diferença. Chutaram quatro bolas contra o gol do Tatu. Duas foram para fora, uma bateu na trave e a outra o Tatu defendeu sem querer. Enquanto isso, o Valmor deixava passar outra bola pelo meio das pernas. Três a zero para o adversário. O jogo estava quase perdido.
No vestiário, no intervalo, o Valmor reagiu com violência à insinuação de que estava comprado só porque deixara passar três bolas pelo meio das pernas. Se estivesse comprado, falharia de modo tão evidente, para não deixar dúvidas? Podia ser ruim, mas não era burro, e muito menos desonesto. O argumento do Valmor foi aceito, todos se desculparam por terem desconfiado dele, e ele foi substituído pelo Nono, que tinha sido comprado e prometera 10% do que ganharia ao Valmor por provocar sua própria substituição.
O técnico Bentinho puxou o centroavante Ramiro para um lado. Iam mudar de tática. Em vez de chutar contra o gol do Tatu de qualquer distância, o Ramiro deveria tentar entrar na área a drible. Assim daria oportunidade ao Tatu de sair do gol e derrubá-lo. Pênalti. Quatro pênaltis como aquele e o jogo estava ganho.
A ordem era: bola para o Ramiro. Para ele entrar na área a drible e ser derrubado pelo Tatu. Mas o Ramiro recebia a bola e a devolvia. Ou pegava a bola na entrada da área e, em vez de arrancar para o gol, recuava. O Bentinho aos berros: "Entra na área! Entra na área!" O Tatu aos berros: "Entra na área! Entra na área!" E o Ramiro recuando, passando para os lados, fazendo tudo menos entrar na área para sofrer o pênalti. O Tatu ficou tão impaciente que a certa altura saiu do gol e foi derrubar o Ramiro lá na intermediária. Não era pênalti, mas funcionou. Quem bateu a falta chutou fraco mas acertou o gol, o Tatu fingiu fazer golpe de vista e a bola entrou no canto, três a um. Cinco minutos depois a defesa atrasou uma bola para o Tatu, que a deixou passar. Três a dois. Só faltava o Ramiro entrar na área e sofrer um pênalti e o jogo estava ganho.
Desde que o Nono, comprado, não aceitasse nenhum gol do adversário. Nono aceitou, duas bolas chutadas de longe, mas nos dois casos o bandeirinha daquele lado, que também tava comprado, deu impedimento. Ramiro se surpreendeu ao ouvir o juiz lhe dizer, num cochicho "Entra na área! Entra na área!" Ele não podia entrar na área e sofrer o pênalti. Estava comprado. Mas qual era a do juiz? O juiz: "Entra na área ou eu te expulso!" Bentinho de fora do campo: "Entra na área ou eu te arrebento!" Tatu, do gol: "Entra na área ou eu vou aí te quebrar!" O Ramiro não sabia o que fazer.
Ramiro entrou na área. Quando o Tatu saiu do gol e quis derrubá-lo, pulou por cima do Tatu e chutou para fora. Mas o juiz deu o pênalti assim mesmo! Também tava comprado. Ramiro fingiu que tinha se machucado para não precisar chutar. Quem chutou foi o Massaroca. Para fora. Também estava comprado. Mas o juiz mandou bater de novo. O Massaroca errou de novo. O juiz mandou repetir. O Massaroca caiu no chão, simulando uma síncope. Grande confusão. Massaroca retirado do campo. Chegou correndo o Nono, gritando: "Deixa que eu bato!" Chutou fraco e em cima do Tatu, que foi obrigado a pegar. Mas ao fingir que ia repor a bola em jogo, Tatu deixou-a cair dentro do gol. Três a três. Bom para todo o mundo. O bandeirinha daquele lado ainda quis insistir que havia irregularidades: no lance, invasão da área pelo time atacante, o Ramiro dando uma voadora no juiz, os padioleiros, que estavam comprados, despejando o Massaroca no chão só de raiva, etc. Mas ninguém lhe deu atenção. O empate estava bom. Era só o que faltava, um honesto querendo estragar tudo. O juiz apitou. Mesmo faltando 15 minutos, o jogo estava encerrado.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Pobre Marianne

Os distúrbios na França que já ameaçam se espalhar para outros países da Europa lembram aquela história nada edificante do marido que não sabe porque bate na Marianne, mas ela sabe porque está apanhando.
As declarações de Nicolas Sarkozy após a morte dos dois jovens e dos primeiros incidentes agravaram o quadro dos distúrbios ocorridos na França na última semana, mas o ministro não pode ser o único responsabilizado pela sua falta de jeito. Dialogar com "a gentalha" não é o forte da "ordem republicana" francesa já há algum tempo.
O pacote econonômico apresentado pelo governo para melhorar a vida nos bolsões de pobreza mostra a distância entre o discurso integracionista e a realidade dos jovens da periferia, imigrantes em sua maioria, que se revoltaram por serem sistematicamente ignorados pela "republicana" e constantemente maltratados pela "ordem".
E como lembrou Gilles Lapouge em artigo no Estado, o estado de emergência decretado pelo primeiro-ministro Dominique de Villepin só foi aplicado uma vez, durante a Guerra da Argélia, o que representa uma péssima evocação. Principalmente porque pode levar ao acirramento dos ânimos entre os radicais dos dois lados. Mas os maníacos liderados por Le Pen tem chances reais de chegar ao poder.